Direito ao Risco de quem?
Direito ao risco só vai até o momento em que algo dá errado. Nesse instante, começa a obrigatoriedade de ajudar quem se meteu em roubada por conta própria.
Nesta semana, dois visitantes foram multados por subir a via ferrata da Pedra do Baú sem equipamentos de segurança adequados. O episódio não é apenas uma infração administrativa; é um lembrete de como escolhas individuais podem repercutir em toda a comunidade.
A Pedra do Baú, transformada em Monumento Natural há mais de uma década, é regida por regras claras de visitação. A administração além de disponibilizar facilidades como estacionamento, segurança, banheiros e informações, tenta criar um ambiente seguro aos visitantes. As regras da Unidade não existem para limitar a liberdade, mas para preservar vidas e garantir que o acesso continue possível. Quando acidentes se acumulam, áreas privadas se fecham. Em áreas públicas, a consequência pode ser ainda mais dura: a proibição definitiva da atividade.
No estado de São Paulo, o Corpo de Bombeiros é responsável pelos resgates oficiais. Mas, na prática, cada operação depende da experiência e do sacrifício de voluntários da comunidade de escaladores. São homens e mulheres que, diante da imprudência alheia, se veem expostos a riscos que não escolheram correr.
Há, portanto, três dimensões inseparáveis nesse debate entre pessoas que acham que podem tudo e os que entendem que existem normas de convivência em lugares públicos e particulares: A legal, que pune a infração. A esportiva, que exige responsabilidade e respeito às normas do montanhismo. E a ética, que nos lembra que nossas decisões nunca são apenas nossas: elas podem colocar em perigo quem tenta salvar.
Sou veterano de algumas décadas de resgate aqui na região e não é raro ter que escutar de familiares frases do tipo “coitado, era tão experiente!” ou “Mas essa “trilha não deveria ser melhor protegida?” sendo que muitas vezes o acidentado preferiu expor-se ao risco.
Respeitar as regras é mais do que cumprir a lei. É reconhecer que a liberdade de subir uma montanha só existe quando há responsabilidade suficiente para que ela continue aberta.
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