Proteger ou manter a originalidade da conquista? O dilema volta em Yosemite.

Proteger ou manter a originalidade da conquista? O dilema volta em Yosemite.

Qual o limite da exposição e perigo em vias que se tornaram populares?

Quem já abriu vias de baixo para cima, certamente já se deparou com o dilema de adicionar proteções em lances que durante a primeira ascensão, não foi possível proteger.

A base para um esporte crescer é a segurança. Obviamente que podem e devem existir vias mais perigosas e pouco protegidas, mas a verdade é que nem sempre os conquistadores conseguem proteger bem durante uma primeira ascensão e vias que poderiam ser um grande sucesso de público, acabam caindo no esquecimento ou sendo palco de acidentes graves. As pessoas buscam esportes como a escalada por diversos motivos: fazer parte de um grupo de amigos que vai para ambientes naturais, aventura, atividade física, autoconhecimento, e por aí vai… Então é saudável que não haja um padrão de conquista e equipamento de rotas, mantendo assim a pluralidade de estilos.

É enriquecedor ler opiniões de grandes conquistadores, que não só abriram vias icônicas do ponto de vista da técnica e do psicológico, como se preocupam em deixar suas linhas seguras para outros escaladores. Somente um feedback de anos em vias as quais muitos escaladores frequentam, podem gerar opiniões embasadas no real e não em gostos pessoais.

Matéria da revista americana Climbing sobre a Snake Dike no Half Dome

Matéria da revista americana Climbing sobre a Snake Dike no Half Dome

Após um grave acidente onde uma escaladora neozelandesa teve uma queda muito grande que acasionou a amputação do pé esquerdo na via Snake Dike (V 5.7) no Half Dome em Yosemite, o debate reacendeu no Vale. Eric Beck, um dos conquistadores se pronunciou através de carta para a revista Climbing. Leia na íntegra:

Snake Dike é uma antiga rota minha, junto com Jim Bridwell e Chris Fredericks.
Na primeira subida, esperávamos continuamente uma escalada muito mais difícil e conservávamos nosso suprimento de 12 grampos, além de esperar descer em um dia. Saímos da rota tendo deixados as paradas com apenas um grampo e apenas dois grampos de proteção. Percebemos que isso era totalmente inadequado para uma rota moderada, que já podíamos ver que seria popular por ser tão bonita.
Steve Roper fez a segunda ascensão. Nós imploramos que ele adicionasse mais grampos, o que ele fez, admiravelmente. Ele duplicou todos os pontos de parada  e acrescentou um grampo de proteção nos lances mais longos. Ele também desceu em um dia. Eu pedi a outros times para adicionar mais parafusos. Eu até coloquei um canal de comunicação para isso quando estava em Oakdale alguns anos atrás. Idealmente, eu gostaria de ver cinco grampos de proteção a mais onde há trechos longos sem proteção. Isso é semelhante às rotas em Dozier Dome em Tuolumne.
Roper uma vez perguntou: “Toda escalada é para todos?” Pode parecer que eu quero descaracterizar o Snake Dike e trazê-lo para o menor denominador comum, mas o Snake Dike não é uma peça de teste. Não tem presas. É uma rota encantadora em um dos grandes monólitos do nosso planeta. Se tivéssemos mais tempo e mais parafusos, teríamos feito isso sozinhos [durante a conquista.]
Há uma tradição com a qual concordo que o primeiro grupo de ascensão deve ser o árbitro do estilo em uma escalada. Bridwell se foi e Chris desapareceu da cena de escalada. Então, mais uma vez, peço à comunidade de escaladores para adicionar mais alguns grampos ao Snake Dike.

 

Parece que últimamente no Brasil escreve-se uma coisa e alguém mal intencionado já diz que entendeu outra, então só pra frizar bem do que se trata o assunto: Esse é um dilema que se refere a adicionar ou não proteções por quem abriu uma via (conquistador). No caso da Snake Dike, foram os conquistadores que assim o desejaram e pediram para outras pessoas realizarem a grampeação. O Direito Autoral sobre as vias de escalada é sagrado na escalada, e nenhuma alteração deve ser feita sem que o conquistador autorize.

Eliseu Frechou

Eliseu Frechou

Guia de montanha e instrutor de escalada. Iniciou no esporte em 1983 e desde então se dedica ao montanhismo e à escalada tempo integral atuando em diversos segmentos, mas principalmente na organização de expedições, produção de documentários e filmes.


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3 comments

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  1. Bobby
    Bobby 3 novembro, 2022, 02:00

    Eu pessoalmente gosto de vias protegidas. Quando uma via é bonita, a exposição não é que vai fazer dela prazerosa. É justo contribuir para que uma bela rota seja acessada por diversos estilos de escaladores. lindas rotas são deixadas no esquecimento porque são expostas. com o tempo, mesmos os conquistadores não as repetem, A tendência, penso eu, é de vias mais protegidas.

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    • Eliseu Frechou
      Eliseu Frechou Author 4 novembro, 2022, 15:25

      Exato Bobby. Você que abre muitas vias sabe que se num lugar só houver vias expostas, o point cai no esquecimento. E no caso da Snake Dike, é justamente o caso no qual os conquistadores notaram que a via ficou perigosa e pedem a ajuda para melhorar a segurança. Nas vias que os conquistadores consideram que a exposição deve permanecer, essa vontade deve ser igualmente respeitada.

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  2. Jose
    Jose 2 novembro, 2022, 19:10

    Tem que adicionar sim. Querer manter uma via perigosa para um grupo de egocêntricos é irresponsavel e egocêntrico.

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