Mosquetão de Ouro 2024

Mosquetão de Ouro 2024

Fiquei muito feliz por ter recebido durante o Rio nas Montanhas, o Mosquetão de Ouro 2024 na categoria Montanhismo e Sociedade.

Primeiramente é necessário agradecer as pessoas e empresas que sempre me apoiaram de maneira incondicional e possibilitaram termos hoje uma rica documentação da história do montanhismo brasileiro na forma de jornais, filmes, podcast e agora a websérie Profissão Montanhista, que foi o motivo da prestigiosa premiação concedida pela Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada. Também agradeço aos que votaram em mim e fizeram a diferença no Voto Popular; agradeço ao Júri do Mosquetão de Ouro e as Entidades (Clubes e Federações) que juntos, formam o conselho que tem a palavra final. Obrigado por entenderem a amplitude do trabalho que venho realizando no decorrer das últimas 3 décadas.

O prêmio aconteceu por conta da websérie Profissão Montanhista, mas foi baseado no trabalho de documentação do montanhismo e da escalada nacional realizo desde 1990, quando o jornal Mountain Voices começou a ser editado (foram 174 edições em 31 anos). Nesse mesmo tempo vieram os filmes, os documentários, trabalhos para diversas revistas e televisões e o podcast On the Rocks. A divulgação do montanhismo nunca foi fácil nem barata. Além da transformação das mídias e linguagens, dogmas precisaram ser discutidos, e às vezes quebrados, para que a evolução aconteça. Frequentemente essas discussões são acaloradas, causando catarses na cabeça de muitos que imaginam ser esse, um esporte imutável. O esporte que comecei a praticar em 1983 é totalmente diferente deste que hoje é entendido como normal em falésias, montanhas e ginásios. O crescimento e a evolução aconteceram de fato, e por sorte conseguimos chegar aqui da melhor forma possível.

As modalidades do montanhismo e da escalada, assim como em todos os esportes de montanha são muitas. E é essa pluralidade que faz esses esportes tão atraentes. Você pode gostar de uma cerveja amarga ou doce, completamente diferente de outra pessoa, mas os dois são na verdade, amantes da cerveja e podem se sentar e trocar ideias, experiências e risadas. Foi esse espírito que Ana e eu procuramos transmitir com a websérie: um montanhismo verdadeiro, a escalada por quem a vive intensamente, seja um guia de montanha, dono de ginásio, ressolador, dono de abrigo, quem pode treinar fanaticamente e escalar 11º grau ou quem é um escalador amador que curte mesmo é um 4° grau e a vibe da galera, mas que gasta todo o tempo livre e dinheiro que pode para ir à montanha. A ideia foi transmitir que o montanhismo pode ser vivido de forma diferente por diferentes pessoas, com diferentes papéis. Essa diversidade é fundamental para o crescimento sustentável do esporte. Ela nos dá equilíbrio. Mais que um documentário essa websérie é um legado produzido por todos os que participaram dela, e eu divido esse prêmio com vocês.

Futuro

Para mim, este é um momento de repensar com quem se interessa pelo tema, o papel da mídia de montanha, seja ela documental ou recreativa. Quando assistimos, ouvimos ou lemos uma entrevista ou um filme de algum feito esportivo ou local de prática esportiva, estamos consumindo informação e absorvendo conceitos. A transição das mídias e linguagens é uma constante em nosso tempo, e hoje estamos na era das mídias sociais. Se nos anos 80 e 90 tínhamos desafios de fazer o esporte crescer, difundir notícias e informações sobre o que acontecia no Brasil e assim fomentar o montanhismo organizado, o desafio atual é o de filtrar as toneladas de vídeos, stories, reels e artigos que brotam em nossas redes sociais assim que ligamos nossos celulares. Com a nossa aprovação ou não, essas mídias tem uma força de comunicação nunca antes imaginada, e é nelas que ocorre o debate público.

Como testemunha e documentarista do que aconteceu no montanhismo nas últimas 4 décadas, lembro que na década de 1990 era a rivalidade dos montanhistas tradicionais versus escaladores esportivos que dominava a cena, e essa rixa nada contribuiu para o crescimento das modalidades. Hoje os impasses para o montanhismo tradicional e a escalada (de boulder, esportiva ou indoor) crescerem de forma sustentável e sadia são outros. No campo aberto das mídias sociais há desde aberrações e bizarrices descaradas, até sutilezas bem mascaradas mas que no fundo são puro oportunismo, sexismo e outros ismos que tentam dividir nossa comunidade para isolar certas parcelas, que uma vez desgarradas, se tornam alvo fácil e lucro certo.

Em um mundo polarizado, nossa reflexão sobre a importância de superar diferenças e focar no que realmente importa deve ser constante. Devemos ser uma voz positiva, construtiva e inclusiva na comunidade do montanhismo e da escalada, não permitindo que preconceitos que envolvam a cor da pele, o gênero, a classe social, a posição no espectro político, orientação sexual, formato do corpo ou força do antebraço nos impeçam de agregar pessoas legais, que nos ajudem a evoluir como pessoas, escaladores, montanhistas e a dar cabo de algumas garrafas de cerveja.

https://www.instagram.com/p/C7eScI6u8PJ/

Eliseu Frechou

Eliseu Frechou

Guia de montanha e instrutor de escalada. Iniciou no esporte em 1983 e desde então se dedica ao montanhismo e à escalada tempo integral atuando em diversos segmentos, mas principalmente na organização de expedições, produção de documentários e filmes.


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