Via Ferrata no Itabira, ES ?

by Eliseu Frechou | 9 de dezembro de 2020 19:41

Half Dome (Yosemite, EUA), Grande Civetta (Dolomitas, IT), Pedra do Baú (Serra da Mantiqueira, SP) tem em comum impressionantes vias ferratas, que possibilitam a democratização do montanhismo. Tornam o esporte inclusivo à pessoas que com pouco conhecimento técnico, conseguem subir essas montanhas e assim deslumbrarem-se com as vistas e sentirem-se como os escaladores que alí chegam. Sim… mesma sensação dos escaladores, pois afinal, a aventura e seu sentimento de superação residem de forma e intensidade diferentes em cada um de nós. E antes de mais nada, via ferrata não é via de escalada, é uma modalidade do montanhismo, e deve ser respeitada. Portanto, não há a mínima razão para querer impor regras ou éticas da escalada numa via ferrata.

Se alguém achar que a sua forma de se relacionar com o esporte é a única válida, é no minimo… egoísta. E se alguém usa o bondinho do Pão de Açúcar para descer da montanha após uma escalada, e está se posicionando contra as vias ferratas, é no mínimo hipócrita.

 

Half Dome no Parque Nacional de Yosemite, EUA. A via Ferrata é facilmente identificada no centro da face.

Half Dome no Parque Nacional de Yosemite, EUA. A via Ferrata é facilmente identificada no centro da face.

Bochetti Centrali, uma das ferratas mais bonitas dos Dolomitas

Bochetti Centrali, uma das ferratas mais bonitas dos Dolomitas.

Na Itália e na Espanha, existem livros e guias específicos para as ferratas, equipamentos próprios destinados a modalidade, que inclusive atrai em muitos locais, mais montanhistas e turistas interessados nessa modalidade, do que escaladores.

A conversa no jantar outro dia em casa, foi a crescente indignação dos escaladores na forma de cartas de repúdio, sobre a construção de uma via ferrata no Pico do Itabira, em Cachoeiro do Itapemirim, ES. Minha opinião? A favor. Por que? Por que nós, escaladores, não somos os únicos com direito ao acesso às montanhas. Montanhas são um patrimônio da humanidade e não um bem dos montanhistas. E quem não estiver a vontade com o fato de ter que compartilhar o espaço com pessoas mais simples, menos preparadas técnicamente, que procure outras montanhas. E sinceramente, todos os argumentos contra a construção da via ferrata, podem ser usados como forma de inibir a escalada, e vejo isso como um enorme tiro de calibre 12 no nosso pé. Escaladores movem pedras, derrubam vegetação, abrem trilhas e picadas, usam estradas abertas por tratores e asfaltadas para chegarem aos seus destinos esportivos. Aliás, qual escalador já não usou uma via ferrata para subir ou descer de uma montanha?

Fato é que o egocentrismo e a arrogância estão enraizadas no montanhismo de tal forma, que ser contra determinada opinião, verdades absolutas e imutáveis de certos escaladores, te faz parecer ser contra o próprio montanhismo.

Trecho final da via Teixeira no Dedo de Deus, RJ. Como se chama essa escada? via ferrata, não é?

Trecho final da via Teixeira no Dedo de Deus, RJ. Como se chama essa escada? via ferrata, não é?

Minha experiência com as ferratas sempre foi bem feliz. As escadas da Pedra do Baú, construídas em 1940 pelos irmãos Cortês de São Bento do Sapucaí, possibilitaram que eu levasse meus filhos desde cedo aos 5 anos de idade, até topo dessa imponente muralha rochosa, 4 anos antes deles terem podido ascender a montanha por uma via de escalada.

Artur com 5 anos, e Vitor com 7 anos, na ferrata da face sul da Pedra do Baú.

Artur com 5 anos, e Vitor com 7 anos, na ferrata da face sul da Pedra do Baú.

Por que não no Itabira?

Voltando a polêmica do Itabira, qual a minha surpresa quando os dois proprietários das terras abaixo do Itabira (e financiadores da obra, que em nenhum momento feriu a ética do montanhismo, passou por cima de alguma via de escalada), adentraram pela porta de casa. Enfim, como toda discussão tem 2 lados, conheça abaixo a deles.

 

Pico do Itabira, em Cachoeiro do Itapemirim, ES

Pico do Itabira, em Cachoeiro do Itapemirim, ES

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