Nova rota na cachoeira do Tabuleiro

by Eliseu Frechou | 17 de junho de 2019 22:25

Em quatro dias de trabalho em solitário, uma nova via foi criada na imponente parede direita da Cachoeira do Tabuleiro, a terceira maior cachoeira do Brasil.

 

Haul bags na primeira parada.

Haul bags na primeira parada. Imagem: Ana Fujita.

 

A rota “Spacewalker” 5°VI A3 200m, tem início perto da base da via “Chá Macrobiótico”, e em duas enfiadas cheias atinge de forma independente o platô do meio da parede, vinte metros à direita da base da terceira enfiada da via “Hidro do Topo”.

As primeiras duas enfiadas são positivas e ligeiramente verticais a medida que chegam perto do platô de bivaque que marca o meio da parede, batizado na semana passada de platô Iannotta. Muitos blocos ainda estão por se soltarem, então máxima atenção é exigida aos que querem repetí-las, e eu ainda sugiro que o segundo faça segurança em algum lugar protegido dos boulders que certamente virão abaixo.

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Segunda enfiada. Note o enorme bloco solto em forma piramidal. Medo! Imagem: Artur Frechou

A terceira enfiada da “Spacewalker” inicia no platozinho da “Entre o Ego e a Realidade” e distancia-se dela logo após a terceira proteção, seguindo suavemente à esquerda em artificial de cliffs de buraco, rebites, colocações bem ruins em blocos encaixados e rocha fragmentada, que originaram o grau sugerido A3, até a primeira chapeleta, que está a cerca de 8m acima da primeira base da “Entre o Ego e a Realidade”. Mais 10m e encontra-se a base.

 

Terceira enfiada, um A3 em cliffs de agaraa, buracos, peças e blocos soltos... e todos os horrores de uma enfiada deste grau. A mais exposta até o momento. Ima: Ana Fujita

Terceira enfiada, um A3 em cliffs de agarra, buracos, peças encaixadas entre blocos soltos… e todos os demais horrores de uma enfiada deste grau. É a mais exposta até o momento. Imagem: Ana Fujita

A quarta enfiada, segue por um diedro fendado bem óbvio e alterna proteções estranhas, com outras bombproof, o que torna a enfiada perfeita para uma futura tentativa em livre. O final desta quarta enfiada, segue por outro diedro positivo, que finaliza quase no grande teto abaixo da rampa final que dá acesso ao cume. Este diedro, assim como a parte de baixo do teto, é repleto de grandes blocos soltos do tamanho de mochilas de ataque.

Eliseu Frechou

Quarta enfiada, logo abaixo da rampa final. Imagem: Artur Frechou

A rampa final parece ser bem diferente da rocha da parte inferior da parede. É positiva e deve ser mais fácil de escalar, mas é um pesadelo para puxar haul bags pois é coberta de vegetação e blocos encaixados.

Na conquista da segunda enfiada, um desses muitos blocos que caíram durante a conquista, quase atingiu o Eduardo Ralf e danificou uma das cordas. A partir do quarto dia da conquista, escaladores de Minas Gerais começaram a preparar cordas fixas para acessar o platô “Hidro no Topo”, em um evento em homenagem ao Mr. Bean, escalador que mais se dedicou à escalada no Tabuleiro, com grandes conquistas em MG, e que faleceu em janeiro no Fitz Roy. Içar bags, ou mesmo continuar em livre, se mostrou extremamente arriscado para as pessoas que visitam o poço abaixo da cachoeira e escaladores que estariam circulando na parte inferior e base da parede para participar da cerimônia em memória do nosso amigo. Resolvi descer da quarta parada para que a conquista não se transformasse em uma tragédia.

A primeira vontade é de subir e terminar a “Spacewalker” numa linha que riscaria a parede quase que reta. Pesando contra a finalização da via de forma independente, há vias à direita e à esquerda que fluem por rocha de boa qualidade e limpa; e que apesar de serem num estilo diferente, com grampeação mais farta, são possibilidades para acessar o cume. Então, agora que voltei com a equipe durante 10 horas de estrada, matutando os próximas passos, uma possível volta para finalizar a via até o topo – ou dar a conquista como terminada na quarta enfiada – resolvi não fazer o croqui, até que tenha tomado a decisão do que fazer.

Eliseu Frechou

Visão da quarta enfiada.

Quero agradecer à minha esposa Ana, meu filho Artur que foram minha equipe de apoio desde o início.

Ao Parque Natural do Tabuleiro e sua gestora Junia Aguiar pelo apoio e incentivo à escalada no Tabuleiro. Ao Luís Monteiro “Lugoma” pela articulação local e dedicação à Federação de Montanhismo e Escalada de Minas Gerais.

Aos meus patrocinadores e apoiadores, e em especial à SOLO[1] que possibilitou a participação do Edson Vandeira que mais uma vez, registrou de forma magistral e incansável a aventura.

Obrigado à:

DEUTER[2] – sacos de dormir, mochilas e acessórios
SBI OUTDOOR[3] – ferragens e cordas TRANGO e sapatilhas TENAYA
ÂNCORA[4] – Parabolts
EINHELL[5] – marteletes
DACHSTEIN[6] – botas

A ferradura do Tabuleiro. Imagem Artur Frechou

A ferradura do Tabuleiro. Imagem Artur Frechou

 

Endnotes:
  1. SOLO: https://loja.solo.ind.br/
  2. DEUTER: http://www.deuter.com.br
  3. SBI OUTDOOR: https://www.sbioutdoor.com.br/
  4. ÂNCORA: https://www.ancora.com.br/
  5. EINHELL: http://einhell.com.br/site/produtos-einhell/
  6. DACHSTEIN: https://dachstein.com.br/

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