Escalada Artificial – Entenda a graduação

by Eliseu Frechou | 10 de janeiro de 2015 16:10

Via do "Teto do Baú", uma via de A1 que muitos confundem com A0[1]

Michel Abdelnur na via do “Teto do Baú”, uma via de A1 que muitos confundem com A0

São frequentes as dúvidas de escaladores com relação a graduação de vias em artificial. Comumente, muitos confundem os equipamentos usados, com a escala de grau.

Escalada Livre – A escala de graduação em livre, conta apenas a dificuldade técnica, sem levar em conta a exposição ao perigo. A não ser que após o grau em livre, exista a complementação da classificação de Exposição, que é a letra E, seguida de números de 1 a 5: E1 (escalada segura, geralmente vias esportivas), E2… até E5 (enfiada inteira com proteção ruim ou inexistente), o grau de 1° até 11a da via dimensiona apenas o esforço físico que o escalador precisará dominar para passar o trecho. Portanto, uma via de 3° grau, pode ser muito mais perigosa que uma de 8°, se o escalador levar em conta apenas esta classificação e não souber se a via é bem, mal, muito ou pouco protegida. Outro fator a se levar em conta, é que mesmo na classificação E, leva-se em conta, que o escalador tenha a perícia necessária para instalar corretamente as proteções, pois caso contrário, uma vis de E3, pode se transformar facilmente em E4. Todavia, esta classificação não é muito difundida, e muitos Manuais de Escalada preferem descrever em forma de texto o tipo de perigo que a escalada oferece: proteções fixas distantes, rocha podre, lacas expansivas…, o que acaba sendo muito mais interessante.

Classificação Artificial – Na escalada A (do inglês Aid), que começa no A0 (uso de ponto de apoio de qualquer natureza dentro de um lance predominantemente em livre) mas que interessa mesmo de A1 até A5, o que muda é o perigo que determinada enfiada reserva ao guia de cordada. Não importa o tipo de proteção, importa o tamanho da queda e se o escalador vai bater em platôs, cair diretamente no chão, ou qualquer outro infortúnio, antes de a corda retesar.

O que é um A0?
A0 é um lance isolado numa via escalada em livre que em algum momento, por falta de agarras, ou dificuldade de algum movimento, o guia faça uso de um ponto de apoio (grampo, nut, friend…), para “roubar” no trecho e depois voltar a escalar em livre. A classificação A0 é dada apenas para lances pequenos, onde não há a necessidade do uso de estribos. Mas se o escalador usa um grampo, nut, friend, tensão de corda, árvore… como ponto de apoio, tanto importa.

E um lance de A1?
Muitos escaladores já me perguntaram: “vou escalar a via do “Teto do Baú”. Aquele A0 é difícil?
A via do “Teto do Baú” é um artificial de mais de 40 grampos. Grampos não saem da rocha (pelo menos não deveriam sair, ahahaha), portanto, já que existe uma sequência no uso de estribos, mas é um trecho seguro, esta via é classificada de A1. Se a mesma via fosse em proteção móvel, e as colocações fossem seguras, o grau permaneceria inalterado.

Wagner Pahl na primeira enfiada da via "Zodiac" no El Capitan. A2+ ou C3[2]

Wagner Pahl na primeira enfiada da via “Zodiac” no El Capitan. A2+ ou C3

A5, o limite.
A partir do A1+, o que conta para aumentar o grau, é o risco de queda, baseado na qualidade das proteções ou ausência delas. A partir do grau A2, os trechos sem boas proteções começam a aumentar, num trecho de A4, por exemplo, a enfiada pode ter de 35 a 45 metros de proteções que só agüentam o peso do corpo do guia, e em caso de uma delas falhar, a queda potencial, pode ultrapassar os 80m.
O grau máximo é o A5, quando a enfiada inteira tem proteções ruins, nenhuma proteção fixa, além de não permitir furos de cliff. Numa escala onde o que conta é o perigo, o A5 seria um trecho que se o guia cair ao final, faria um zíper arrancando todas as peças e certamente morreria devido a severidade da queda.

Classificação C
A escala americana de artificial que é usada em todo o mundo, exceto na Austrália, ainda tem a classificação C (de Clean) para enfiadas em artificial onde não são usados pitons ou proteção fixa. Quando isso acontece, pode-se ao invés de usar a letra A, substituí-la pela letra C. Assim um trecho de A2 feito com estribos no qual o escalador usou apenas nuts ou cliffs ou friends e não martelou nada, pode ser classificado como C2. Outra situação que devemos levar em conta, é que muitas vezes um piton fica tão bem instalado que oferece uma boa proteção (mas danifica a rocha), e se neste caso, pode-se substituí-lo por uma micro-nut, que aguenta muito menos, podemos aumentar propositalmente o grau desta enfiada. Um exemplo clássico é a primeira enfiada da via “Zodiac” no El Capitan. Se o trecho for escalado usando pitons, o grau é A2+, mas se você não bater pitons, terá conseguido passar um C3.

Como já mencionei acima, esta classificação é baseada na experiência e perícia de escaladores que dominam as técnicas do artificial e colocam as proteções com maestria. É também uma classificação um tanto subjetiva, pois há dias que acordamos mais medrosos e outros mais corajosos. Mas não deixa de ser um parâmetro para que saibamos se teremos pela frente um trecho tranquilo, ou um no qual vamos fritar o cérebro na adrenalina.

 

Endnotes:
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  2. [Image]: http://eliseufrechou.com.br/wp-content/uploads/2015/01/PICT0410.jpg

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