Elektra

Elektra
Penúltima enfiada.

Penúltima enfiada.

Quando me mudei de São Paulo para São Bento em 1989, vim com um amigo chamado Saulo de Tarso, e logo começamos a abrir algumas vias no que é hoje o Campo-escola São Bento, as margens da SP 042. Naquele tempo, não havia mais do que 10 vias no conjunto Pedra do Baú, e aqui embaixo, em São Bento, absolutamente nenhuma via.

Naquela época, subir para o Baú dava um certo trabalho, na incerteza de conseguirmos voltar de carro. O asfalto da Estrada do Paiol Grande só ia até o Acampamento, e de lá pra frente, se chovesse no dia anterior você não chegava no estacionamento do Sr. Chico Bento, ou se chovesse enquanto você estava escalando, é provável que seu carro ficasse numa das valetas da estrada. Voltei a pé várias vezes.

A primeira via que conquistamos no Conjunto Pedra do Baú foi a “Elektra” 4°V na Ana Chata, que nos tomou 7 investidas para ser concluída. A proteção original foi feita com spits de ¼” com chapeletas da cantoneira e alguns grampos “pé de galinha”, que eram laçados com fitas, pois não tinham olhal. Ainda estão na via, em lances fáceis e quase que para efeito ilustrativo da história, um exemplar de cada uma dessas proteções. Na enfiada que chega ao “Platô dos Gaviões” ainda há um piton feito por nós e instalado na conquista, protegendo a travessia antes da primeira chapeleta.

Usávamos kichutes e as cadeirinhas fomos nós mesmos que confeccionamos! Tínhamos uma corda de 45m, nuts e um jogo de hexentrics. Posso garantir que foi bem adrenante sair no desconhecido sem sequer um cliff hanger para parar de mãos soltas e bater um grampo. O lance era buscar por um platô ou positivo para bater a proteção quando a última ficava longe. As brocas eram horríveis, quebravam, engripavam no furo, e por mais de uma vez, a investida não avançou mais de 3 grampos no dia e voltávamos com as mãos cheias de bolhas.

Pé de Galinha

Pé de Galinha

Como as empreitadas levavam um dia inteiro e era comum voltarmos ao entardecer, levávamos marmita para garantir a barriga cheia. Numa das vezes, um dos cachorros do Sr. Chico Bento nos acompanhou, certamente para filar um rango, e subiu até onde hoje é o platô a direita da primeira parada, e onde paramos algumas vezes para almoçar da gente. Sem querer eu joguei um osso para o cachorro próximo da borda do platô, e o malucão foi tão ávido no osso que perdeu o equilíbrio e caiu uns 30m parede abaixo. Por sorte o cão sobreviveu, mas nunca mais nos acompanhou.

A linha de Elektra, na Ana Chata.

A linha de Elektra, na Ana Chata.

 

O croqui.

O croqui.

 

Duas regrampeações depois, a linha está equipada com grampos de 3/8”, paradas duplas e equipadas para rapel, os escaladores possuem friends… mas ainda Elektra tem lances bem desafiadores para quem não está acostumado a escalar nesse ambiente de aventura.

Assim como outras vias que abrimos na época, o nome “Elektra” foi inspirado em uma HQ com o mesmo nome. Elektra na história é uma ninja assassina, mas na vida real, quem foi o verdadeiro ninja foi o cachorro, que sobreviveu à queda do platô. Pessoal, recomendadíssimas: a via e a HQ.

Elektra, de Frank Miller e Bill Sienkiewicz

Elektra, a musa inspiradora, de Frank Miller e Bill Sienkiewicz

 

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Ana Chata

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