Califórnia 2017 – parte II – Lover’s Leap

by Eliseu Frechou | 21 de dezembro de 2017 19:21

Após a escalada do Mount Whitney, Rogério, Nathália e eu seguimos para Yosemite para mais uns dias de escaladas tradicionais no vale. Clima bom, facilidade de locomoção e tudo o que se pode desejar de um dos melhores parques nacionais americanos, que é Meca da escalada mundial.

Na sequencia, o Rogério e Nathália seguiram em viagem para o Napa Valley e eu encontrei com a Ana para mais uma etapa da viagem, que tinha o Half Dome e o The Incredible Hulk na lista de objetivos.

Ana, rumo ao Half Dome. Roubada.

Ana, rumo ao Half Dome. Roubada.

Half Dome no dia seguinte. Ainda bem que descemos.

Half Dome no dia seguinte. Ainda bem que descemos.

Optamos pelo Half Dome por ser uma escalada mais dura e um aprendizado a mais para a Ana. Num papo com o Nick Martinez, ele nos avisou de que uma parte da via havia desmoronado, e que a seção estava mais complicada para passar, exigindo escalar em artificial. Como estávamos despreparados para este contratempo, tivemos que comprar uns cliffs para o artificial, preparamos comida para 3 dias, e planejamos a escalada com um pernoite na base da via, e outro da 17° enfiada. A previsão do tempo era favorável, prevendo 4 dias de tempo limpo e sem chuva. Bora!

Acordamos cedo e partimos ladeira acima. Há duas alternativas para acessar a base da Northwest Regular: via aderências em frente da parede (bem perigosas se você estiver pesado), ou pela trilha para a subida da via ferrata. Optamos pelo caminho mais seguro, que tem 11km de extensão, mas que aos 6km, há um rio onde poderíamos captar a água para os dias na parede.

O dia foi avançando e quanto mais subíamos, mais frio ficava. Um frio cortante que nos forçava usar agasalho mesmo expostos ao sol e caminhando com peso.

Ao chegarmos na parede, encontramos um escalador americano que nos avisou ter uma cordada na parede, e que estes, estavam tendo dificuldade para passar o trecho da 11ª. enfiada. Justamente a seção que desmoronara! Avançamos até um bloco de pedra de onde tínhamos a visão da parede e da dupla que estava na via. Mais ninguém na montanha. Ponderamos sobre o frio, sobre o problema da seção e bateu um desânimo. Decidimos voltar. Frustração, choro engolido, droga, droga, droga… mas sentíamos algo estranho e era melhor prestar atenção. A descida foi triste. Triste até quase chegarmos a Happy Isles. Ali, começou uma chuva fina. Pensamos: ainda bem que não ficamos lá em cima, pois iríamos tomar uma bela chuva naquela noite. Comemos pizza, bebemos cervejas, e fomos para o Camp 4. Naquela noite choveu muito, mas muito mesmo. O Camp 4 ficou inundado. Tivemos pena da cordada que estava na parede. Pensamos em secar umas coisas e depois tirar o dia de descanso para as pernas. Isso até sairmos do bosque onde fica o Camp 4 e olharmos as montanhas. Estava tudo nevado, já abaixo da cota de altitude do Half Dome. Meu! Por pouco nos nos ferramos. A previsão errou feio, mas a nossa intuição, não.

Tuolumne Meadows nevado no dia seguinte.

Tuolumne Meadows nevado no dia seguinte.

A frustração do dia anterior deu lugar a alívio, por não termos entrado numa grande roubada. Tomamos café, preparamos as tralhas e mudamos os planos para o The Incredible Hulk, que fica do outro lado da Sierra Nevada. Ao passar por Tuolumne Meadows, passamos por muita neve e tempestades fortes, que nos acompanharam até Mammoth Lakes. Novamente olhamos a previsão, que profetizava clima ensolarado dali a três dias.

Fizemos passeios de consolação, fomos para Buttermilks, tomamos mais cervejas, comemos muita comida mexicana e no terceiro dia estávamos em Bridgeport para ver as condições para o Hulk. “No way, dude!” Disse o porteiro do camping em que iríamos deixar o carro para subir para a montanha. A neve estava alta demais, cerca de 50cm. Isso indicava que as fendas por onde deveríamos escalar e proteger, também estavam entupidas de neve. Era bem pouco provável que conseguíssemos escalar lá nas próximas duas semanas, pois depois de a neve descongelar, a montanha ficaria escorrendo água por mais vários dias. Deu vontade de chorar. Por que? Por que?

Ana num dos blocos de Buttermilks, em Bishop.

Ana num dos blocos de Buttermilks, em Bishop.

Ok. Sem outra opção, pensamos em outro objetivo. Lembrei-me de Lover’s Leap. Falei com o mago Nick novamente e ele nos recomendou o pico. Partimos para lá e nos demos finalmente bem.

Entrei nessa via em Phanton Spires com poucas peças e tive de descer. Escalador pobre não tem vez nessas paredes, ahahaha!

Entrei nessa via em Phanton Spires com poucas peças (1 jogo de friends e outro de nuts) e tive de descer. Escalador pobre não tem vez nessas paredes, ahahaha!

Lover’s Leap é uma gigantesca falésia que fica bem perto de Lake Tahoe, próximo da divisa de Nevada. A grande maioria das vias seguem as fendas verticais que riscam a parede e são em geral, seguras. Para as vias que escalamos, dois jogos de friends e pelo menos um de nuts são obrigatórios, melhor levar dois. Nos Phanton Spires, um lugar bem próximo com blocos fendados de 30m a 50m eu me dei mal levando apenas um jogo de cada peça e tive de descer de duas vias.

Em Lover’s Leap as rotas tem em média 4 ou 5 enfiadas. Leve fitas grandes para as bases. Nenhuma das que paramos tinha grampos. Treine a montagem rápida de bases móveis, ou vai escalar pouco por lá. Não rolas de rapelar as rotas, você tem que chegar ao topo e descer por trilha. Então fique atento ao clima e ao grau das rotas, ou terá de abandonar equipamento móvel para descer.

Preparando o equipo na base da falésia.

Preparando o equipo na base da falésia.

Vai lá, Aninha! E monta a base direitinho ;)

Vai lá, Aninhaaaa! E monta a base direitinho ;)

Use luvas para fenda, ou esparadrapo para proteger as mãos.

Use luvas para fenda, ou esparadrapo para proteger as mãos.

Há um camping bem perto da falésia, que tem banheiros, mas não tem chuveiro. A cerca de 1km, colado na rodovia, há o Strawberry Lodge onde rolas tomar banho e um Mountain Shop bem equipado onde você pode (no horário comercial), comprar alguns itens de primeira necessidade que precise, além do guia de escaladas do local. A cidade mais próxima com supermercado, gasolina, restaurantes é Lake Tahoe, que dista uns 20km. Então fica a dica para que você vá pra lá o melhor abastecido possível.

Gastamos 3 dias em Lover’s Leap e Phanton Spires. Não foi o que planejamos, mas foi o que havia disponível no momento. A Ana curtiu bastante e guiou várias vias em móvel, e esse aprendizado é muito importante, então a trip foi um sucesso.

ThanX: SOLO[1] mountain wear, DEUTER[2] mochilas e sacos de dormir, CAMELBACK garrafas e sistemas de hidratação, SPOT BRASIL[3] sistemas de telefonia e sinalização satelital.

Endnotes:
  1. SOLO: http://www.solo.ind.br
  2. DEUTER: http://www.deuter.com.br
  3. SPOT BRASIL: https://br.findmespot.com/pg/

Source URL: http://eliseufrechou.com.br/california-2017-parte-ii-lovers-leap/