Ascensão por cordas com blocantes mecânicos

by Eliseu Frechou | 20 de outubro de 2017 13:06

Todo montanhista tem que obrigatoriamente, carregar dois pedaços de cordelete, para numa emergência poder improvisar um sistema de auto-resgate usando nós blocantes como o prussik ou o machard. Mas se você sabe que terá de subir várias cordas fixas, o sistema de nós é muito pouco eficiente – além de demorado – para ser usado em grandes paredes ou conquistas.

 

Se você irá escalar grandes paredes que exigem escalada em artificial, a dinâmica é diferente da escalada livre, pois apenas o guia irá escalar. O segundo irá limpar a enfiada usando ascensores, enquanto o guia (já na base), estará se ocupando de outras tarefas. Em conquistas, também é comum fixar cordas nos trechos já escalados, facilitando a descida para lugares mais seguros e confortáveis a noite, e o retorno pelas cordas fixas no dia seguinte para continuar os trabalhos. Ascender cordas fixas pode ser uma técnica perigosa. Você terá de confiar completamente em seu equipamento: ancoragem, corda, ascensores, cadeirinha. Portanto familiarize-se com a montangem do sistema e as diversas técnicas de ascensão, antes de entrar numa situação real, onde o aprendizado pode ser traumático. Ascensores mecânicos, mais conhecidos no Brasil como jumares, têm o sistema baseado em um came (como o do friend) e uma mola que mantendo-o tensionado, só permitirá que a corda viaje em uma direção, a de subida. É suave e fácil de usar, além de rápido. Se você ainda não tem este equipamento e está considerando comprá-lo, note que há ascensores esquerdo e direito, com acesso de corda em um lado específico. Trocá-los de mão, torna o uso bem complicado, pois ficará difícil abrir ou liberar o came.

Detalhe da conexão correta do ascensor  na  corda.  Note  o  mosquetão  que impede o escape acidental.

Detalhe da conexão correta do ascensor na corda. Note o mosquetão que impede o escape acidental.

Para ascender com eficiência, você vai precisar de dois ascensores, duas solteiras (modelos ajustáveis são os melhores) ou fitas, dois estribos, mosquetões simples e de trava.  A montagem do sistema segue a ordem: um ascensor instalado na corda para cada mão e pé (o ascendor da mão direita, usado para o pé direito), com um jumar conectado em cada estribo – e uma solteira conectada no baudrier (com nó boca de lobo) e o final da solteira conectada em cada jumar com um mosquetão de trava. A mão dominante vai no ascensor de cima. O tamanho da solteira de cima, deve ser a do seu braço ligeiramente dobrado, jamais não esticado (o que torna a ascensão trabalhosa). A solteira do ascensor inferior deve ser mais curta – alguns centímetros a menos que o comprimento do antebraço.

1. Ascensor 2. Mosquetão do estribo 3. Mosquetão da solteira 4. Mosquetão de travamen- to do ascensor a corda.

1. Ascensor
2. Mosquetão do estribo (estribo na cor preta, já conectado).
3. Mosquetão da solteira
4. Mosquetão de travamento do ascensor a corda.

Começar a subir é difícil pois a corda precisa ser esticada a fim de deslizar suavemente. A partir do segundo metro, a técnica vai parecendo mais fácil, até que você comece a dominá-la com fluidez. A dica é que enquanto estiver de pé, ainda no chão com o sistema adequadamente montado, deslize o jumar superior para cima e puxe para baixo para fazer a corda esticar tanto quanto possível. No início, você pode precisar liberar o came do ascensor inferior para deslizar melhor para cima – apenas libere o came, não o desconecte completamente da corda! Assim, fica mais fácil deslizar o ascensor inferior para cima. Repita várias vezes, até que a corda esteja esticada.

A chave para mover-se eficientemente com esta técnica é manter seu peso nos pés. Para subir o corpo, um movimento dinâmico, como o de um balanço, irá facilitar também.

Como com qualquer tipo de escalada, seus braços devem somente prendê-lo verticalmente, enquanto seus pés o impulsionarem para cima. Levante-se em seu estribo com os braços dobrados em cerca de altura do peito. Deslize o jumar superior para cima e pise para cima com a mesma perna. Agora deslize suavemente o segundo jumar para cima e force essa perna; Este é o jumar que irá manter o seu peso enquanto você move o jumar superior. Pode ser tentador puxar com o braço depois de deslizar o primeiro jumar, mas você deve se concentrar em empurrar com a perna e simplesmente guiar a parte superior do corpo com o braço. Se você está tendo problemas com isso, deve estar fazendo movimentos longos demais. Diminua o tamanho da solteira de cima e faça movimentos mais curtos. Preserve a força dos seus braços, ou você chegará exausto já na primeira parada.

Usando os dois pés no ascensor de baixo: Esta técnica é muito eficiente, e minha preferida para subir escalada negativas. Você vai instalar os dois estribos no ascensor de baixo, deixando o ascensor de cima com apenas a solteira conectada ao baudrier. O movimento de subida é como de um sapo. Pode parecer mais lento, mas não é, além de preservar as pernas, que irão trabalhar em conjunto e não separadamente como no sistema anterior.

Marcio Bruno jumareando no El Capitan. Note o back up com nó, diminuindo o tamanho da corda.

Marcio Bruno jumareando no El Capitan. Note o back up com nó, diminuindo o tamanho da corda.

Check list
Sempre encorde-se no final da corda de escalada;
Sempre use duas solteiras conectadas nos dois ascensores para que caso um falhe, o outro segure seu peso;
Faça um back up: a cada 5 metros, faça um nó oito na corda que sai do ascensor de baixo e clipe-o com um mosquetão de trava na sua cadeirinha. Suba mais 5 metros, faça outro nó, clipe-o, soltando e desfazendo em seguida o nó anterior. Fazendo isso, caso haja uma falha nos dois ascensores (!) da corda você não escapará.

Seja muito atencioso com eventuais quinas cortantes no traçado da sua corda. Uma corda tensionada e um canto afiado de rocha são uma combinação mortal.

 

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